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03/10/2017 - 07:00
Nobel de Medicina de 2017 vai para ingleses que estudaram relógios biológicos
 
 
 
Foto: Divulgação
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Especialistas que recebem nobel de Medicina 2017
O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2017 foi para três americanos, Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young, pelas descobertas dos mecanismos moleculares por trás dos ritmos circadianos. O anúncio foi feito na manhã desta segunda (2).

A palavra circadiano significa "ao redor do dia" e os ritmos circadianos têm origem evolutiva que remonta às células mais primitivas. Na prática, eles permitem que as células -e os organismos que formam- tenham um comportamento otimizado dependendo da hora do dia.

O trabalho dos americanos foi decifrar quais são as engrenagens moleculares do chamado relógio interno. A sacada foi perceber que existe um processo de retroalimentação que configura o relógio.

Em conversa por telefone, Michael Rosbash, da Universidade Brandeis, nos EUA, disse que foi acordado logo cedo por um representante do comitê do Nobel. "Estava na cama, dormindo, quando o telefone tocou. Eram 5h10 da manhã."

"Fiquei surpreso. É uma área importante mas não pensávamos que seria agraciada. Existem várias áreas empolgantes na biologia."

Um experimento conduzido no século 18 já mostrava que seres vivos poderiam ter uma espécie de relógio interno: a planta mimosa abre suas folhas de dia e as fecha à noite. Quando foi colocada em um ambiente escuro, o padrão de abertura e fechamento se repetia. O que faltava era explicar como isso ocorria.

Os primeiros experimentos ocorreram na década de 1970, mas só na década de 1980 houve um grande salto, com estudos usando a mosquinha Drosophila melanogaster.

A dupla Hall e Rosbash foi responsável pelas descobertas do funcionamento do gene "period".

Basicamente, esse gene é o responsável pela produção do RNA mensageiro que contém instruções para a produção da proteína PER. Essa proteína, por sua vez, é responsável por inibir a atividade do mesmo gene "period".

Dessa forma, dependendo da quantidade de PER nas células, é possível que o organismo tenha uma noção aproximada de que horas são.

Uma questão, no entanto, faltava ser resolvida: a periodicidade. O que faria o ciclo de produção de PER durar aproximadamente 24h?

Parte da resposta veio com o trabalho de Young, que descobriu um outro gene de relógio, o "timeless", que produz a proteína TIM.

Young mostrou que a TIM se liga à PER. Esse complexo consegue entrar no núcleo da célula e bloquear a atividade do gene period. Ele ainda descobriu um outro gene, o "doubletime", que produz a proteína DBT, também capaz de atuar sobre a PER, provocando sua degradação.

A partir das descobertas surgiu o embasamento para explicar por que, em humanos, a pressão sanguínea é maior e os reflexos são mais ágeis de dia e, de noite, tendemos a sentir sonolência e baixar a temperatura corporal.

BRASIL

Atualmente já há também explicações de como fatores externos, como a luminosidade, entram na jogada. Mas esse avanço só foi possível por esses trabalhos que quebraram o paradigma de uma área, segundo a comissão do Nobel.

A avaliação é compartilhada pela professora da USP Regina Markus, pesquisadora da área de cronobiologia. "Interessante que tenha sido um reconhecimento da pesquisa básica -feita em drosófila. Os trabalhos premiados são a raiz, o início da área", diz. "O Brasil geralmente se preocupa em financiar tecnologia ou inovação, mas, para isso acontecer, é preciso pesquisa básica de alta densidade. É dela que surgem desdobramentos."

A professora diz que a noção de tempo para o organismo pode ser afetada por lesões -casos em que a melatonina, hormônio que sinaliza a fase escura do dia, deixa de ser produzida. O hormônio é uma das formas de o organismo sincronizar seus vários relógios biológicos.

"Relógio biológico" não é termo que Mario Pedrazzoli, cronobiologista e professor da USP-Leste tenha em alta conta. Ele prefere usar "temporizadores biológicos", porque "o termo relógio é uma falsa analogia e traz uma ideia de marcação do tempo fixa, que não depende de mais nada".

Em um de seus trabalhos, Pedrazzoli mostra que o gene PER3 -parente do PER- é importante para explicar hábitos diurnos em primatas e que alterações no gene podem levar a distúrbios de sono.

Há outros estudos que mostram possíveis efeitos negativos relacionados à agressão do relógio (ou temporizador) interno: hipertensão, obesidade, diabetes, problemas de memória e colesterol elevado. O que falta, afirma Pedrazzoli, é traduzir o conhecimento em medicina preventiva.

Indo para o lado biológico da coisa, Rosbash diz que ainda há mistérios a serem resolvidos. Por que a temperatura não exerce nenhuma influência nesse processo, que é em grande parte químico? Outra incógnita é o motivo de nós e todos os outros animais dormirem –falta entender a função do sono.

No ano passado o vencedor do prêmio foi Yoshinori Ohsumi, que desvendou grade parte do mecanismo pelos qual as células reciclam o próprio "lixo", a autofagia.

A única pessoa nascida no Brasil que recebeu um Nobel foi o britânico Peter Medawar, pela descoberta das bases da tolerância imunológica adquirida. Rosbash conta que também tem um vínculo com o Brasil. Seus avós maternos se estabeleceram no país e ele tem primos em São Paulo.

Os vencedores de 2017 dividirão o prêmio de 9 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 3,5 milhões).

O dinheiro vem de um fundo de mais de 4 bilhões de coroas suecas deixado pelo patrono do prêmio, Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite. Os prêmios são distribuídos desde 1901. Além do dinheiro, o laureado recebe uma medalha e um diploma.

A escolha de quem vai receber a láurea é realizada por um grupo de 50 pesquisadores ligados ao Instituto Karolinska, na Suécia, escolhido por Alfred Nobel em seu testamento para eleger os autores de notáveis contribuições para o futuro da humanidade.

AGENDA NOBÉLICA

Terça (3) Nobel de Física
Quarta (4) Nobel de Química
Quinta (5) Nobel de Literatura
Sexta (6) Nobel da Paz
Segunda (9) Prêmio de Ciências Econômicas
Folhapress
 
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02 de Outubro de 2017
 
 
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